Zine

5 de setembro, 2025 ARTISTA EM DESTAQUE

Entre traços e memórias

Joyce sempre teve essa mania de riscar o mundo. Desde criança, desenhava qualquer coisa que aparecesse pela frente. Nunca foi de escrever muito, mas a mão estava sempre ocupada com tintas, caixas de MDF, peças artesanais. O fazer manual fazia parte dela. Só que demorou até que a arte virasse escolha de vida — ou melhor, até que ela decidisse que precisava de algo que fosse só dela.

 

 

O estalo veio depois do segundo filho. “Eu precisava de uma coisa que me encantasse, mas que fosse minha.” Um dia, entrou numa loja e pediu: queria uma caneta que funcionasse em qualquer superfície, que não borrasse. Saiu de lá com três uni POSCA — preta, prata e dourada. Foi amor à primeira pincelada. O primeiro quadro virou presente para a sogra, com o retrato do pai dela, já falecido. Quando viu a emoção que aquele traço provocou, Joyce não teve mais dúvida: era disso que queria viver.

Desde então, suas madrugadas nunca mais foram silenciosas. É nesse horário, quando a casa finalmente dorme, que ela cria. Às vezes busca referências no Pinterest, mas o que mais gosta é quando alguém chega com uma ideia carregada de afeto. “Quero algo romântico”, ou “algo para lembrar de alguém especial”. E ela vai lá e transforma desejo em imagem.

Claro, nem sempre flui. Tem mês em que o bloqueio chega junto com a bagunça da casa. Tem mês em que o movimento cai e, junto, vem o branco criativo. Mas o que a sustenta é sempre a mesma coisa: a emoção do outro. “O que mais me encanta é a felicidade das pessoas ao receber. É ver que elas se emocionam.”

 

 

A maternidade também atravessa esse caminho. Joyce diz que a arte lhe deu paciência. Criar virou um refúgio. “Quando estou trabalhando, entro em outro mundo. Não penso em mais nada.”

Entre inspirações como Karol Stefanini e Jenny Kelly, ela também aprendeu a se blindar contra as críticas. No começo, ouviu muito que deveria arrumar um emprego fora, colocar o filho na creche, porque arte “não dá retorno”. Hoje, encara diferente. “É ter coragem e não desistir.”

O sonho é claro: viver só da sua arte e ter um ateliê do seu jeito, sem improviso. Hoje, o espaço é um corredor da casa, com uma bancada apertada. Amanhã, ela imagina um lugar inteiro só para criar.

Criatividade, para ela, é paz. É silêncio. É estar sozinha com o traço. Se pudesse escolher, passaria um dia inteiro isolada, só desenhando, deixando o tempo escorrer sem pressa.

Joyce sabe que a arte ainda enfrenta desvalorização. Sabe também o quanto é difícil bancar esse caminho em meio às contas e aos olhares atravessados. Mas escolhe seguir. Porque, para ela, cada desenho é um jeito de eternizar uma memória. E é nesse gesto simples — e ao mesmo tempo imenso — que sua arte encontra sentido.

Para acompanhar o trabalho dela, cola no Instagram: instagram.com/joyspacemcz/.