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8 de agosto, 2025 ARTISTA EM DESTAQUE

De Olinda e de Carnaval

 

A primeira lembrança que Tami tem com a arte é de um quadrinho feito na escola, com um cavalo-marinho e uma estrela-do-mar. Até hoje ela tenta reencontrá-lo. “Era um trabalho escolar, provavelmente com estêncil, mas é a minha primeira memória com a arte”, conta.

Foi só aos 26 anos, morando sozinha, que essa memória ganhou outro sentido. Tami já desenhava, mas a pintura era um exercício íntimo, um respiro entre compromissos. “Eu colocava minhas telas na parede de casa. Quando os amigos chegavam, comentavam, e eu pensava: é, eu realmente gosto de fazer isso”, lembra. Foi então que o lazer virou uma conexão necessária.

Em Recife, Tami carrega no traço e na paleta a força do lugar onde vive. “Sou muito influenciada pelas cores daqui. Às vezes até exagero na saturação, mas é como eu vejo o mundo”, explica. Essa intensidade também se revela no processo criativo: referências vêm das trocas com amigos, do que consome de forma intencional nas redes e das memórias que teima em preservar nas telas.

“Eu sempre escrevo no meu Instagram que gosto de trazer a arte como um centro de memória. Quero que as pessoas olhem uma pintura minha e sejam transportadas para um momento, um lugar, uma lembrança”.

Essa busca pela memória atravessa inclusive sua trajetória profissional. Antes de se abrir para a arte, Tami passou três anos em cursinhos tentando medicina e chegou a cursar três períodos de enfermagem. O design veio depois, quase como um ponto de encontro. “Não me sinto atrasada. Tudo fez parte do meu processo. A saúde, a comunicação…tudo está conectado”.

A artista acredita que criatividade é como um superpoder. Mas, paradoxalmente, ela nasce da limitação. “Quanto mais eu consumo referências sem filtro, menos me sinto criativa. Então tento ser intencional, consumir menos para poder criar mais”.

Hoje, ela sonha em ter mais tempo para pintar sem pressa, viver da arte e ver suas telas viajarem o mundo. Tem coragem suficiente para isso, mas admite que gostaria de ter tido mais quando começou. “A gente precisa se expor, mesmo com medo da crítica. Só assim outras pessoas vão acessar aquilo que a gente cria”.

Quando fala de sonhos, Tami se lembra de uma tela em que retratou duas pessoas tomando café em um jardim. “Na verdade, as duas sou eu. É sobre fazer coisas sozinha, me permitir estar comigo mesma.”. Assim como essa pintura, suas obras carregam camadas. Para o observador, pode ser apenas uma cena cotidiana. Para ela, é um retrato de sua própria essência.

Misturam-se também os desejos: viver da pintura e criar algo para o artista que mais admira, Marcelo D2. “Ele lança qualquer coisa e eu penso: queria ter feito isso. É um artista completo”.

Até que esse encontro aconteça, Tami segue pintando o que vive, o que sonha e o que guarda. Pinta para lembrar. Pinta para não esquecer.Para acompanhar o trabalho da artista, cola no Instagram: instagram.com/eutamimartins/.