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3 de julho, 2026 ARTISTA EM DESTAQUE

Em trânsito

Quando o Instagram mostrou a entrevista que tinha dado em 2024 como uma lembrança, Maju resolveu assistir de novo. Ela conta que se emocionou. Naquela conversa, falava sobre o momento em que estava vivendo: morava sozinha, começava a crescer pintando murais e sonhava em levar sua arte para o mundo. “Sem nem esperar que no mesmo ano eu realmente começaria a levar minha arte para o mundo”, diz. Um ano depois, percebeu que a vida tinha andado mais rápido do que os planos.

Hoje, ela vive mudando de casa. Não sabe se gosta da palavra “nômade”, mas admite que é a que mais se aproxima da rotina que leva. A mala está sempre pronta, as canetas viajam junto com ela e o trabalho deixou de acontecer em um único lugar. Cada cidade passou a fazer parte do processo criativo, não apenas como cenário, mas como fonte de inspiração.

O interessante é que essa nunca foi a carreira que ela imaginou para si. Formada em jornalismo e com passagem pelo marketing, acreditava que seguiria um caminho parecido com o de muita gente: crescer dentro de uma empresa, assumir novos cargos e construir uma carreira estável. A arte sempre esteve presente, mas ocupava outro espaço. “Eu nunca pensei: vou trabalhar pintando murais, vou trabalhar com a minha arte. Nem imaginava que isso era uma possibilidade.”

A mudança começou durante a pandemia. Enquanto esperava a troca de contrato na empresa onde trabalhava, ganhou alguns meses livres e decidiu ocupar o tempo desenhando. Pegou as canetas e as tintas que tinha em casa e começou a publicar os trabalhos nas redes sociais. As pessoas foram se interessando, incentivando que ela continuasse, até que surgiram os primeiros pedidos.

Na mesma época, ela alugou um apartamento para morar sozinha. Como a grana era curta, resolveu decorar o lugar por conta própria. Pintou as paredes sem imaginar que aquele seria um dos momentos mais importantes da carreira. As pessoas começaram a ver o resultado e perguntar se ela faria o mesmo em outras casas. Ela aceitava, mas sempre fazia um aviso antes: “Vamos aprendendo junto durante o processo.”

Quando lembra dessa época, Maju evita transformar a própria história em uma narrativa de coragem ou de grandes decisões. Ela fala muito mais em naturalidade. Um trabalho levou ao outro, que levou ao seguinte, até chegar o momento em que precisou decidir se apostaria naquilo de vez. “Acho que agora que ela tá crescendo, é hora de apostar nisso. Se der errado, vai dar certo de outra forma.”

A partir daí, passou a estudar com mais dedicação. Como não tinha formação em artes visuais, precisou pesquisar materiais, entender superfícies, descobrir quais produtos funcionavam melhor dentro das casas das pessoas e aprender, na prática, aquilo que a faculdade nunca tinha ensinado. A profissionalização veio junto com o trabalho. Enquanto pintava, também estudava.

Hoje, quando fala sobre inspiração, percebe o quanto seu processo mudou. Durante muito tempo, buscava referências no Pinterest e em artistas que acompanhava pela internet. As viagens mudaram esse hábito. Agora, a inspiração aparece caminhando pelas ruas.

Enquanto a gente conversava, ela contou que está morando no México. Disse que vive cercada por cores, estampas e flores diferentes, e que o celular “já tá pra explodir de tanta foto”. Tudo chama sua atenção. Às vezes é uma flor, às vezes uma fachada, uma combinação inesperada de cores ou uma conversa que escuta pelo caminho. Sempre que pode, faz um registro ou desenha um sketch rápido no caderno para não perder a ideia.

Viajar também aproximou Maju de referências que antes existiam apenas nos livros ou nas telas do computador. Ela fala do privilégio de visitar museus, ver obras de Monet, Van Gogh e Dalí de perto, mas faz questão de dizer que sua inspiração não vem apenas desses grandes nomes. Ela está, principalmente, nas pessoas que conhece e nos lugares onde escolhe viver por algum tempo.

Talvez por isso tenha demorado um pouco para responder quando perguntei qual tinha sido o maior aprendizado que a arte lhe proporcionou. Depois de pensar por alguns segundos, ela chegou a uma conclusão que aparece várias vezes, de maneiras diferentes, ao longo da entrevista.

“Eu acho que ela tem me ensinado mais sobre mim.”

Enquanto sua arte crescia, ela também amadurecia. Aprendeu a ser mais disciplinada, mas percebeu, principalmente, que usa a pintura como uma forma de criar vínculos. “A minha arte hoje em dia é muito mais sobre a forma que eu uso ela pra me conectar com os lugares, que eu uso ela pra me conectar com as pessoas. E aí eu vou me conhecendo também através disso tudo.”

Não por acaso, quando precisa resumir seu trabalho em três palavras, escolhe “conexão”, “cores” e “alegria”. Ela explica que sempre quis colorir os lugares por onde passa e provocar algum tipo de sensação em quem encontra seu trabalho. Conta que, às vezes, nem precisa pintar um mural inteiro. Basta escrever uma frase em algum canto. “Eu quero que as pessoas passem, olhem pra minha arte, mesmo que seja uma coisa pequena, e aquilo traga uma sensação pra elas.”

Os planos para o futuro continuam passando pela arte, mas hoje ela parece menos preocupada em definir exatamente como eles vão acontecer. Quer participar de mais residências artísticas, desenvolver projetos com comunidades locais, pintar um grande mural público e lançar produtos próprios. Também sonha em escrever um livro ilustrado por ela e, quando fala disso, volta a uma ideia que aparece diversas vezes durante a conversa: “Hoje em dia eu tô mais aberta às possibilidades do futuro.”

Essa talvez seja a maior diferença entre a Maju de 2024 e a de agora. Antes, imaginava uma carreira estruturada, quase desenhada com antecedência. Hoje, prefere deixar espaço para aquilo que ainda não consegue prever. A própria trajetória mostrou que os caminhos mais importantes nem sempre aparecem nos planos iniciais.

Antes de encerrar a entrevista, pergunto que conselho daria para quem está começando na arte. Ela fala sobre estudar, experimentar e mostrar o próprio trabalho ao mundo, mas insiste principalmente na importância de não ter medo de errar. “A arte é algo que precisa ser visto”, diz. Depois completa: “Até os erros são acertos. A gente só talvez não esteja percebendo isso na hora.”

É difícil não relacionar essa resposta à própria história que acabou de contar. A carreira que ela construiu não nasceu de uma decisão cuidadosamente planejada. Nasceu de uma sequência de tentativas, de paredes pintadas sem grandes expectativas, de mudanças de rota e da disposição para seguir em frente mesmo sem saber exatamente onde aquele caminho terminaria. Hoje, olhando para trás, Maju diz que continua querendo levar sua arte para o mundo. A diferença é que agora ela sabe que, enquanto pinta novos lugares, também continua descobrindo um pouco mais sobre si mesma.

Para acompanhar a artista nas redes, cola no Instagram: instagram.com/eumagnolia/.