Zine
Pintar paredes como quem inventa mundos

Em Mauá, no ABC paulista, existe uma artista que pinta árvores cor-de-rosa.
Luiza, conhecida como Naturaleza, cresceu cercada por tinta, pincéis e artesanato. A mãe pintava madeira, telas e paredes. A irmã mais velha desenhava e fazia pinturas a óleo. Antes do graffiti entrar na vida dela, a arte já ocupava espaço dentro de casa: “Eu sempre observava elas produzindo”, conta.
Hoje, Naturaleza trabalha como grafiteira, pintora artística, arte educadora e produtora cultural. Seu trabalho é marcado por personagens, cenários noturnos e uma paleta que gira em torno de rosa, roxo, azul e turquesa. Mesmo os elementos da natureza fogem das cores óbvias. Árvores podem aparecer lilases. Folhas ganham tons improváveis. Tudo parece atravessado por uma lógica mais imaginativa.
Mas a relação com a rua não começou cedo. Antes do graffiti, ela fazia mandalas, pintava madeira e experimentava algumas intervenções em casa ou na casa de amigos. Pintar murais era uma vontade antiga, embora ela ainda não conhecesse ninguém da cena. A aproximação aconteceu quando conheceu a grafiteira Jae Alves, sua companheira, que apresentou a ela coletivos femininos como Mulheres Insurgentes e Grapixurras das Minas.
Foi nesse ambiente que Naturaleza começou a desenvolver sua linguagem: “Vi que existiam espaços para começar sem a pressão de ser muito boa desde o início”, lembra.

A primeira pintura em parede trouxe uma sensação que ela ainda guarda: a de perceber que podia ocupar outros espaços. A rua também ampliou a visão que ela tinha sobre arte e pertencimento. Entre artistas, encontrou pessoas que usam a pintura como forma de expressão, troca e construção de identidade. Essa ideia aparece bastante no trabalho dela.
A personagem Lia, recorrente em suas pinturas, nasceu das memórias de infância da artista e da relação dela com livros e imaginação. Às vezes, Lia aparece lendo, desenhando ou cercada por elementos naturais. Naturaleza também prefere que a personagem não seja interpretada de forma totalmente feminina ou masculina.
Existe algo de aventura nas imagens que cria, uma sensação parecida com a de explorar um terreno desconhecido quando criança.
Antes de trabalhar diretamente com arte, Luiza foi professora de Ciências durante oito anos. Formada em Biologia, começou a dar aulas de pintura online durante a pandemia, quando criou o Ateliê Naturaleza. Depois vieram oficinas de graffiti, desenho e pintura para jovens.
Ela conta que muitas pessoas chegam às oficinas acreditando que desenhar depende de um “dom”. O que mais gosta de observar é justamente o momento em que alguém deixa essa ideia de lado e começa a experimentar.
Ao longo dos últimos anos, seu trabalho também mudou bastante. Das mandalas surgiram flores, folhas, personagens e cenários mais complexos. Hoje, as pinturas carregam uma identidade visual bastante própria, mas Naturaleza ainda fala sobre o próprio processo como algo em construção: “Amo estudar, praticar e viver arte”, diz.
Para acompanhar o trabalho da artista, cola no Instagram: instagram.com/atelienaturaleza/.
